Adriano Silveira(*)
Durante décadas, a Defesa Civil de Salvador foi lembrada apenas nos momentos de emergência. Bastava uma chuva intensa ou um deslizamento para que suas equipes entrassem em ação. Essa lógica, porém, já não responde aos desafios das mudanças climáticas. Hoje, proteger vidas significa agir antes que o inesperado aconteça, e poucas ferramentas são tão eficazes quanto a educação.
Construir cidades resilientes exige uma população capaz de reconhecer riscos, compreender os impactos dos eventos extremos e adotar atitudes preventivas. A prevenção deixa de ser responsabilidade exclusiva do poder público e passa a ser um compromisso compartilhado por toda a sociedade.
Em Salvador, essa transformação acontece nas escolas e comunidades. Desde 2017, o Programa Defesa Civil na Escola (PDCE) já alcançou mais de 12 mil estudantes da rede municipal. Além de abordar conceitos sobre percepção e prevenção de risco, o programa desenvolve senso de pertencimento e responsabilidade coletiva.
O aprendizado ultrapassa a sala de aula. Crianças e adolescentes compartilham o conhecimento com familiares e vizinhos, tornando-se multiplicadores de uma cultura preventiva. Em 2026, o PDCE foi reformulado para atender melhor adolescentes e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), com estudos de caso, simulações e situações do cotidiano, estimulando maior participação.
A mesma proposta orienta os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs). Ao longo dos anos, foram formadas 114 turmas de adultos, capacitando 3.808 moradores, além de 60 turmas do Nupdec Mirim, que envolveram 1.294 crianças.
Mais do que transmitir informações, os Nupdecs fortalecem a organização coletiva. Temas como mudanças climáticas, primeiros socorros e proteção comunitária ajudam moradores a identificar sinais de perigo e a agir preventivamente, sobretudo em áreas vulneráveis, onde os impactos dos eventos extremos costumam ser mais severos.
Outro exemplo é o Projeto Mobiliza. Desde 2018, mais de quatro mil voluntários foram capacitados para atuar na prevenção e no apoio comunitário, reforçando que uma cidade preparada depende também de cidadãos conscientes e organizados.
Os maiores resultados dessas iniciativas estão na criança que orienta os pais durante uma chuva forte, no jovem que identifica uma situação de risco antes que ela se agrave ou no morador que mobiliza a vizinhança para salvaguardar a comunidade.
Obras de contenção, monitoramento meteorológico e sistemas de alerta permanecem essenciais para a gestão municipal de Salvador. Mas nenhuma infraestrutura substitui o valor de uma população informada. Cidades resilientes são construídas não apenas com tecnologia, mas principalmente por pessoas preparadas para prevenir acidentes, agir de forma solidária e transformar conhecimento em proteção à vida.
(*) Diretor-geral da Defesa Civil de Salvador (Codesal).